Entenda a diferença entre travesti, transexual, cross dresser e drag queen

Atualizado on 07/07/2015 em Transexual e travesti
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Uma mulher transexual que ainda não fez uma cirurgia de redesignação genital — mais conhecida como “mudança de sexo” — se apaixona por outra mulher. Difícil de entender? Pode ser.

O conceito de transgênero abriga uma variedade de identidades e sexualidades mais diversa que as matizes da bandeira de arco-íris que lhe representa. Nada nesse universo é simples ou cabe no termo “normal”, mas, de perto, ninguém o é mesmo.
— Transexual é o indivíduo que nasce biologicamente pertencente a um determinado sexo, mas sente-se, percebe-se e tem a vivência psíquica de pertencer ao outro sexo. Dizemos que a identidade de gênero (saber-se homem ou mulher) não é congruente com o sexo anatômico, biológico — explica Alexandre Saadeh, psiquiatra coordenador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo.
Identidade
A identidade de gênero é o conceito básico para entender a realidade de quem se sente diferente dentro do próprio corpo. É o caso de Thammy Miranda, que faz tratamento com hormônios e, na última semana, fez uma cirurgia para retirar os seios. A operação, contudo, não é fundamental para definir o gênero de uma pessoa. Segundo a militante do movimento transfeminista Maria Clara Araújo, cada indivíduo decide como se identificar.

— Muita gente pergunta qual a diferença entre transexual e travesti. Mas a gente precisa entender que a diferença está na autoidentificação — afirma. — Na questão social, essa é uma diferença de valores socioeconômica. A filha de jogador de futebol que é rica, é branca, teve dinheiro para fazer a cirurgia (de redesignação genital) é transexual. A outra, que é pobre, vive na periferia, é travesti. Esse termo é carregado de muito estigma.
Drag queens são artistas performáticos que se vestem com roupas femininas, independente da sua identidade de gênero, para apresentações. Já os crossdressers são pessoas que usam roupas associadas ao gênero oposto no dia a dia, por interesse ou fetiche. Contudo, segundo a cartunista Laerte, responsável por popularizar o termo e essa discussão, “o crossdresser é um travesti de classe média”. Em 2009, Laerte admitiu ser crossdresser e acabou tornando-se porta-voz desse movimento. Atualmente, se identifica com o gênero feminino e afirma ser bissexual.

Preconceito e orientação sexual

O fator que mais complica a compreensão é a orientação sexual, que nada tem a ver com identidade de gênero. “Se uma pessoa tem identidade de gênero feminina (mulher) e se atrai por alguém com identidade de gênero feminina, logo, ela é homossexual”, explica Daniela Andrade, diretora do Fórum Paulista da Juventude LGBT. Se se interessa por alguém do gênero masculino, é hétero. No caso de se atrair pelos dois, ela é bissexual. Ou seja, L, G e B cabem dentro da letra T na sigla que engloba esse grupo (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros).
Segundo Saadeh, os transexuais sofrem com a dilemas psicológicos complexos, que podem ser potencializados pelo preconceito contra o grupo:
— (As dificuldade são) Autoaceitação e lidar com quem é, sem vergonha de sua condição, ter vivências afetivas e sexuais sem problemas de aceitação pelos ou pelas parceiros ou parceiras, questões de trabalho, fazer a sociedade perceber que não se trata de sem-vergonhice ou mau-caratismo — enumera o psiquiatra.

Outra manifestação do preconceito contra transexuais, mais sutil, mas não menos ofensiva, é o uso gramatical do gênero oposto.
— O maior ensinamento que podemos passar sobre travestis e transexuais é que, se a expressão de gênero delas é feminina, o certo é tratá-las como mulheres. Falar “o travesti” e “o transexual” é ofensivo à pessoa — explica Maria Clara, que acredita no diálogo como a única forma de solucionar o preconceito. — Brasileiro tem dificuldade de absorver algumas informações, ele gosta muito do senso comum. É normal que as pessoas coloquem tudo no mesmo balaio. Com certeza nos comentários dessa matéria muita gente vai dizer: “Pra mim é tudo viado”. Pra desconstruir esses conceitos é preciso reconhecer o preconceito e, a partir disso, ter uma nova visão do que é aquilo. Hoje, a dificuldade do brasileiro é falta de diálogo e, mais ainda, de ouvir esse diálogo — resume.

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